O Que Eu Não Te Contei Sobre a Solitude
Há mais de década minha mãe me pergunta e se pergunta se não vou arrumar alguém; construir família. Não só minha mãe, é verdade. Tias, primos e avós também perguntavam antes da curiosidade se tornar condolência e a pergunta passar a soar indecorosa. Mas minha mãe ainda pergunta, e, no caso dela, vi a curiosidade virar preocupação.
Estou focado nos estudos, mentia. Estou focado no trabalho, mentia. Mas hoje decidi contar a verdade: mentiram pra você, mãe, quando lhe disseram que toda laranja tem sua metade. Me perdoe a franqueza, mãe, mas era mentira quando falavam sobre aquela coisa de alma-gêmea. E isso tudo começou no século quatro antes de cristo quando Aristóteles disse que "A felicidade é para quem se basta a si próprio", e continuou quatro séculos depois quando condenaram Cristo, e estendeu-se por outros quatorze até o cerco de Constantinopla e mais três até a queda da bastilha, outros dois enquanto o homem se preparava para ir à Lua, e continua até hoje, os homens a gastar seu tempo com estas futilidades pois o têm de sobra sem um amor para tomá-lo. E sob esta ótica, parece-me adequado que a conta não feche e que alguns morram sós, e eu mesmo não me sinto triste por isso e portanto a senhora não deveria se sentir também.
Mas, apesar de tudo que digo, é verdade que algumas noites são frias, e por isso mantenho a casa arrumada. Mas deixar a porta aberta só faria piorar, e por isso assisto da janela. De canto de olho, claro, porque de contrário estaria provando a ti certa e a mim errado, que a esta colcha ainda falta um retalho.