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Lucas Rattz,

O Depois, Embalado em Plástico Bolha

Dois anos e três meses atrás eu tinha que enviar alguma coisa frágil por correio. Para isso precisava de plástico bolha. Para garantir que tudo ia chegar bem. Foi um tanto difícil encontrar: saí perguntando em alguns estabelecimentos, um me apontando pro outro, até que finalmente me indicaram uma lojinha de embalagens escondida.

A fachada era inexpressiva e o pequeno letreiro pintado à mão quase invisível. Entrando na lojinha, fiquei espremido entre prateleiras com um mundo de caixas, rolos e embalagens, correndo de uma ponta a outra do estabelecimento pelas duas laterais. O dono, Senhor de não mais que sessenta e cinco anos, sentava-se na outra ponta da loja que mais parecia um corredor.

O perguntei se tinha plástico bolha. Muita coisa, ele me respondeu. O metro custava dois reais. Achei que um metro só seria o suficiente, e o Senhor cortou do rolo para mim, medindo com o braço. Não duvido que a folha de plástico bolha que ele colocou sobre o balcão tinha exatamente um metro de comprimento, com precisão atômica. Confiei mais no seu braço que confiaria num micrômetro.

Apalpei os bolsos em busca da carteira e pesquei um cartão de crédito. O Senhor me encarou por cima dos óculos: não vou passar dois reais no cartão. Ele me explicou que a taxa da maquininha de cartões era no mínimo metade disso e a outra metade iria embora com os impostos. Eu não tinha uma única cédula comigo e meu celular estava descarregado.

Fiquei um tempo pensando em como resolver a situação. O Senhor deve ter visto a inquietação no meu rosto. Pegou o plástico e enrolou e colocou numa sacola, empurrando-a para mim por cima do balcão. Fiquei sem entender, mas ele me explicou de novo: já cortei o plástico; você me paga depois. Peguei a sacola, agradeci, e confirmei que pagaria depois.

Só que é no depois que a vida acontece. Depois, fiz tanta coisa e tantas coisas me fizeram. Atravessei o Atlântico em ida e volta, dormi e acordei, me formei, descobri a verdade: o depois fica para depois.

Dois anos e três meses depois, precisei do plástico bolha outra vez. Dessa vez, não precisei perguntar a ninguém: já sabia onde devia ir, e fui preparado. Não sei se ainda sou a pessoa que comprou de graça um metro de plástico bolha com o Senhor da lojinha de embalagens. Se Heráclito estiver certo, não sou. Mas ainda tenho uma coisa ou outra dela em mim, incluindo a dívida. Dessa vez, não perguntei se tinha plástico bolha; disse: um metro de plástico bolha, por favor.

O Senhor pegou a tesoura, mediu com o braço e cortou. Um metro — não mais, não menos. Enrolou e colocou numa sacola e empurrou para mim por cima do balcão: dois e cinquenta. Então as coisas mudam! Depois, tirei uma nota de cinco reais do bolso e coloquei sobre o tampo do balcão. Peguei a sacola e comecei a me virar. O Senhor me lembrou do que eu já sabia que estava esquecendo: o troco.

Não há troco, Senhor. Dois anos atrás estive aqui e fiquei te devendo pelo metro de plástico bolha. Você não vai se lembrar, mas se eu pegar esse troco da sua mão o céu pode muito bem se partir ao meio e da fenda emergir Baal-Hammon, pois não é assim que a história foi escrita.

Depois, fui embora.